a dúvida e o desespero concentrados em querer não saber
Essa semana eu andei pensando bastante em Shakespeare. Na verdade, eu andei debatendo a possibilidade de assistir esse novo filme, Hamnet (sério que título de merda1), porque ele é um filme sobre o autor.
Pensar em Shakespeare pra mim é pensar na obra dele. Tirando o fato dele usar uma roupa vitoriana com uma pizza de pano no pescoço, eu não sei bem como que eu devo imaginar alguém que viveu numa época que eu não conheço, e escreveu uma obra que eu não tive contato.
Pensar em Shakespeare pra mim é usufruir da minha ignorância. Eu tenho um pé atrás de me expor a um retrato falado construído por outra pessoa. Eu não quero deixar que alguém de fora projete uma luz branca no porão escuro da minha imaginação.
Por acaso, no início do mês eu fui ver a apresentação "Ecos de Shakespeare" (ver foto acima). Eu não tinha certeza se seria uma peça com vários atores, fantasias e etc, e acabei tendo uma surpresa boa quando a peça foi no formato de monólogo.
O ator faz todos os papéis (inclusive narra a troca entre as cenas) e, tirando um ou dois momentos, também não se levanta do banco. E eu achei esse um ponto ótimo de sugestão: eis a interpretação do sr. Giuseppe Garibaldi dos trabalhos de Shakespeare, e talvez, se for do meu gosto, isso se misture um pouco na minha interpretação.
Nesse sentido o teatro é um leve empurrãozinho em comparação com o cinema. Depois que eu vi o primeiro filme do Harry Potter, eu nunca mais consegui ver o meu Harry Potter.
(E por isso eu não concebo crime maior do que colocar o poster do filme na capa do livro)
Como exercício de separar a visão que alguém teve da obra da obra em si, fui lá e achei o Hamlet no sebo.
Resta descobrir se haverá um Hamlet novo a ser descoberto, ou se meu Hamlet já está envenenado além da salvação por tudo o que me foi enfiado cabeça a dentro.
Abraço.
ps. o título é adaptado da contracapa da versão traduzida pelo Millôr Fernandes:
A obsessão de uma vingança em que a dúvida e o desespero concentrados nos monólogos do príncipe Hamlet adquirem uma impressionante dimensão trágica.
Aparentemente era o nome do filho do Shakespeare, mesmo.↩